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Saudade: entre a brevidade e a oikophilia:

John Mayer é o autor de uma das minhas canções favoritas. Nela, Mayer canta sobre aquele sentimento difícil que, penso eu, todos nós enquanto humanos compartilhamos quando contemplamos o tempo passar voando diante de nós, apesar de que o tempo não voa, ele apenas passa, enquanto que “nós voamos” (Sl 90.10) sobre a nossa permanente condição de efemeridade.



Às vezes, assim como Mayer, tenho “(...) tanto medo de envelhecer”, e penso que “(...) sou bom somente em ser jovem”. Ser sempre jovem não no sentido de permanecer eternamente imaturo. A esses, continua o velho conselho do cronista brasileiro Nelson Rodrigues (1912-1980): “Jovens, envelheçam!”.



Contudo, o “ser bom apenas enquanto jovem” é não conseguir lidar muito bem com a inevitável mudança de gerações, com as mortes, as percas, a nossa contingência e transitoriedade no mundo. Ah, temporalidade! Confesso, tenho essa dificuldade, e às vezes penso em pedir a Deus: “Pare este trem!” (Stop this train - John Mayer, Continuum, 2006).



Esse desejo pela permanência daquilo que não se pode reter, percebo com frequência, é resultado e não causa de uma rica e profunda fonte de afeições familiares: a oikophilia. Essa fonte é real em nós quando encaramos de forma realista que aquelas pessoas ou aquele lugar que devotamos nossos afetos mais básicos não estarão para sempre conosco ou à nossa disposição. É aí que nós passamos a expressar a nossa oikophilia, valorizando e amando esses lugares e pessoas ainda mais.



Segundo Sir Roger Scruton (1944-2020), filósofo conservador britânico, os “(...) seres humanos, em sua condição estabelecida, são animados pela oikophilia: o amor dos oikos, que significa não apenas o lar, mas as pessoas contidas nele, e os assentamentos circundantes que dotam aquela casa com contornos duradouros e um sorriso duradouro. O oikos é o lugar que não é só meu e seu, mas nosso.”
É a oikophilia - em termos filosóficos - unida à contemplação da realidade passageira da vida, do aprendizado de que “(...) é preciso durante toda a vida também aprender a morrer.”, conforme disse Sêneca (4 a.C. - 65 d.C.) em seu “Sobre a Brevidade da Vida”, que nos impele ao sentimento de saudade dos nossos, dos momentos em família, das risadas e, de forma tragicômica, até de algumas brigas e atritos resultantes da gloriosa pluralidade de personalidades.



Mas o que é a tal saudade? Alguns anos atrás, descobri duas perfeitas definições para o que entendo sobre saudade. Uma, na pintura do norueguês Edvard Munch (1863-1944) de 1896, chamada “Separation”. Nela, Munch retrata um sujeito melancólico, com os olhos fechados, com cabeça inclinada e com a mão direita no peito “ensanguentado”, enquanto a mulher - o objeto de sua oikophilia - se afasta, olhando para o mar no horizonte, no processo de deixar o homem, enquanto no vento, seus longos cabelos são “separados do peito do homem”, dando a impressão de uma íntima comunhão perdida.
Quando nos separamos, nosso coração não sangra, nem aspectos físicos de nosso amado ou amada são transportados de nós; mas é como se fosse, é o que sentimos, é a linguagem fenomenológica da saudade, diriam os filósofos.



A segunda definição para o sentimento de saudade está no famoso poema de Clarice Lispector ( 1920-1977), escritora e jornalista ucraniana naturalizada brasileira. Clarice, de modo cirúrgico, comparou a saudade com a fome: “Saudade” escreve a romancista, “é um pouco como fome. Só passa quando se come a presença.”



Não estamos falando de antropofagia, mas de oikophilia. O fato é que, a saudade apela para um amor tão íntimo, tão profundo, que a necessidade de afeto emerge de modo semelhante à necessidade fisiológica. Enquanto o corpo necessita de reposição nutricional, a alma suspira pela alimentação da presença pessoal e de lugares amados.



Fonte: Jornal o Regional
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