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A racionalização da ganância:

Conforme a Filosofia Progressista, a mudança possui valor por si só. “Lewis acreditava que um dos mitos mais fortes de seu tempo (século XX) era o do progresso”, escreve o biógrafo Colin Duriez. Esse mito era baseado na crença de que, na medida em que as coisas mudam e avançam no tempo e no espaço, a melhoria e a evolução estão cada vez mais próximas.



De fato — por um lado, e apenas por esse lado — o progressismo pode estar historicamente correto. No que se refere aos procedimentos de conquista, descobrimento, extração, produção e comercialização das tecnologias materiais de trabalho, estudo, lazer, etc., podemos claramente notar um progresso. É evidente que para a comunicação, por exemplo, um iphone é muito superior, sob muitos aspectos, à uma carta escrita a mão que precisa viajar de um país para o outro durante meses.



Porém, por outro lado, também é notável que ao lado desse progresso material, um retrocesso espiritual acontece há séculos, o qual nenhuma tecnologia é capaz de corrigir. Um processo temporal de longo prazo, onde os anseios pelo mundo espiritual estão sendo substituídos por ganâncias terrenas, foi desencadeado. Algo que pode ser resumido em: cuidados do mundo, fascinação da riqueza e demais ambições [Marcos 4.19]. Cada um desses elementos são como fios de fibras naturais, que unidos formam a “corda do diabo” para sufocar a espiritualidade.



Junto com as inovações tecnológicas, gradativamente aconteceu o que o sociólogo Max Weber chamou de “desencantamento do mundo”, um processo de racionalização do mundo moderno. Essa racionalização é a tentativa de — na missão de melhorar o mundo material cumprindo os deveres espirituais — fazer do material seu próprio galardão. É algo como roubar, mas por uma “boa causa”; quando essa boa causa é só uma desculpa racionalizada para tentar amenizar as terríveis implicações morais do assalto. Essa racionalização da ganância fez com que os homens substituíssem o êxtase e o anseio da experiência religiosa pelo êxtase material, tão bem apresentado pelos agentes do materialismo moderno: marketing pessoal, empresarial e coaching.



Quando retrocedemos aos primeiros séculos, vemos a diferença dos cristãos da Era Apostólica/Primitiva com os cristãos da Era moderna e da nossa época pós-moderna. Observe atentamente nas Escrituras o valor e a importância que os antigos davam para o Reino Eterno e celestial: a salvação da alma era o grande tesouro e a morte em prol dela era um triunfo diante da perspectiva espiritual da vida eterna com Deus. Observe agora a importância que nós, os modernos, estamos dando para o progresso da vida material: a salvação da cultura e dos direitos civis é a nossa grande ocupação e preocupação, e a subsistência da vida biológica por maior tempo possível a nossa conquista mais almejada.



Veja bem, caro leitor (a), não é o caso aqui de uma denúncia marxista, uma apologética esquerdista da racionalização da ambição, que confunde a reprovável ganância com a lícita e necessária atividade de produção, criação, inovação e capitalização. Concordo com o filósofo Roger Scruton quando escreveu que “(...) existe uma arraigada tendência nas esquerdas de confundir interesses individuais, racionalmente engendrados e propulsores do mercado, com a questão da ganância, que é uma forma de excesso irracional.”


 


Racionalidade não é equivalente de racionalização. Não reprovo a busca racional por melhorias na saúde ou pela renovação cultural, reprovo a posição que essas coisas tomaram no coração pós-moderno, pautadas numa racionalização.



O ponto nevrálgico da minha crítica aqui é rastrear como aconteceu e acontece um retrocesso na vida espiritual de nossa sociedade cristã ao mesmo tempo em que vivemos grandes progressos materiais. Procuro entender o lugar que o mundo imanente está ocupando em nosso coração. Em contraste com o coração primitivo — com pouca tecnologia — o coração dos cristãos modernos — no período mais rico materialmente — tem abraçado como fim último aquilo que é mera sombra temporal: as riquezas materiais; e, por outro lado, lançado fora (ou deixado na periferia da vida) aquilo que constitui a realidade última e de suma importância: o Reino de Deus.



A causa disso? Como já vimos, está na “corda do diabo” — conceito ambivalente, para quem pensa estar isento de sua responsabilidade diante da atividade satânica. A evidência disso? Pode ser demonstrada na quantidade de tempo que estamos gastamos em oração, em evangelização e em meditação das Escrituras, comparado ao tempo gasto lendo noticiários, fazendo investimentos financeiros, buscando melhorias na saúde, na estética e no futuro de nossa cidade.



Longe das racionalizações da ambição e das tentativas de culpar as estruturas materiais pela nossa lânguida espiritualidade, precisamos nos atentar para o perigo de um coração ambicioso, que tem sua espiritualidade sufocada pelos cuidados do mundo; coração que nos faz esquecer da ordem de Jesus para a ordem de importância das coisas em nosso coração: “(...) buscai, pois, em primeiro lugar, o seu reino e a sua justiça;” [Mateus 6:33].



Fonte: Jornal o Regional
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