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Os perigos da política como esperança: violência e redenção:

Um bate-papo entre Razzo e Razente


 


“A política como esperança não é um problema específico da Esquerda ou da Direita, mas um problema que afeta a todos que possuem uma mente; é um problema mental, independente em qual espectro político
o indivíduo esteja.”
Francisco Razzo


 


Estamos no complexo século XXI; somos o resultado de duas guerras mundiais e muitos conflitos externos e internos da política nacional brasileira. Embora nossa democracia esteja avançada em relação aos motivos dos problemas antigos - como racismo, luta de classes e um desejo por poder centralizador a nível mundial - ainda em alguns discursos da política nacional sobre cosmovisão política é fácil notar traços de antigos ideais filosóficos que deram a base teórica para regimes sanguinolentos que, com essas filosofias, também justificaram milhões de assassinatos em prol de um ideal de transformação social.



Precisamos nos preocupar com esses discursos? Precisamos nos preocupar com o que está por detrás do “Mito” brasileiro ou da “alma mais honesta deste país”? É possível comparar algumas ideias da política extremista brasileira com as ideias dos antigos regimes totalitários, como o nazismo, o fascismo e o socialismo?



Ainda que seja, desde já creio ser equívoco intelectual comparar de modo simétrico discursos de violência política atual com as antigas. Não caiamos num marxismo analítico aqui. Contudo, é preciso lembrar, como bem observou o psicólogo clínico canadense Jordan. B. Peterson, que “[...] a filosofia que orienta as suas ações é a mesma filosofia que já nos conduziu à morte de milhões de pessoas.” Sendo assim, devemos no mínimo nos dedicar a dissecar essas ideias.



Uma dessas ideias é tratar a política como esperança existencial. Para falarmos sobre isso entrevistei o doutor Francisco Razzo, que é professor de Filosofia, autor de “Contra o Aborto” e “A Imaginação Totalitária” e colunista da Gazeta do Povo. Em seu segundo livro, o subtítulo é “Os perigos da política como esperança”, onde Razzo discute exatamente como se forma a mentalidade que transfere para o campo político as respostas para as inquietações mais profundas do ser humano.



Razente:Professor Razzo, o senhor há tempos vem trabalhando com os perigos da política como esperança, e sendo conhecedor de suas ideias, postulo que um desses perigos é o que o senhor chama de “Violência Redentiva”. Explique-nos este conceito e nos diga como a violência, em nome da política, pode se tornar justificável?



Razzo:“O termo ‘Violência Redentiva’ é um conceito que tomei emprestado do cientista político Robert Paxton , em seu livro ‘A anatomia do fascismo’. O termo é interessante e define bem o caráter do tipo de violência que é usado no ambiente mental da política enquanto esperança. A violência redentora é uma violência que precisa ser caracterizada como diferente de todas as outras. Em síntese, ela significa o ato de despersonalizar ou desumanizar aquele que sofrerá a violência. É um tipo de raciocínio que fazemos para instaurar a nossa forma mental de transformação da natureza e da sociedade humana, como a política. A Violência Redentiva vê em especial a esfera política como o meio de transformação do ser humano, uma transformação de caráter ontológico. O agente da violência redentora precisa despersonalizar o seu inimigo e assim torna justificável praticar o crime a fim de dizimar o inimigo.”



Razente:O Brasil é um país historicamente marcado pelas políticas de fé , principalmente das Esquerdas quando defendem a ideia da política como um lugar para encontrar respostas às questões existenciais. Nos fale um pouco sobre isso, sobre o perfil das Direitas e por que não devemos buscar essas respostas na política?



Razzo:“Embora o Brasil tenha sofrido muito com políticas de fé com os governos de Esquerda, precisamos notar que não se trata de um privilégio da Esquerda. Estamos atualmente vendo na ascensão do governo Bolsonaro que a política de Direita - se não mais que a esquerda - é uma política de fé e que tem um arcabouço de elementos constitutivos que não representam o ceticismo. A política como esperança não é um problema específico da Esquerda ou da Direita, mas um problema que afeta a todos que possuem uma mente; é um problema mental, independente em qual espectro político o indivíduo esteja. A política de fé é a politização de uma esperança, depositando um credo; uma esperança de satisfação de compromissos espirituais. É esperar da política que ela se torna a resolução de ordens espirituais. Nesse sentido, sou bastante agostiniano. Não acredito que devemos buscar respostas na política, mas numa ordem religiosa. Acredito numa ordem política, sim, mas sendo a religiosa superior e não podendo ser encarnada, esgotada ou reduzida à política. As esquerdas e as direitas fazem isso porque os agentes políticos dessas posições fazem uma identificação exaustiva da instancia política com a religiosa.”



Razente:Quais formas de pensar que mais influenciam entender a política em termos existenciais?



Razzo: “As raízes dessas formas de pensar são muitas e existem várias escolas filosóficas; o epicentro é a Revolução Francesa (1789-1799), quando surgiu a ideia de uma democracia totalitária a partir dos processos revolucionários, mas também daquilo que foi retroativo à revolução – o reacionarismo – com seu viés nacionalista, mais romântico, com traços nostálgicos e muito bem estudado pelo autor Mark Lilla , em ‘A Mente Imprudente’ e a ‘A Mente Naufragada’ que faz uma análise dos teóricos que representam estes pensamentos. Nas Esquerdas, destacaria em especial Marx e Foucault como representantes e, na Direita - atualmente - destacaria o Olavo de Carvalho, que resgata a característica que trabalha a política como um meio de restaurar a alta cultura, destruída na modernidade por escolas de Marx ou de Frankfurt.”



Razente:Para encerrarmos nossa entrevista professor, de que maneira podemos corrigir esse pensamento e adequar nossos anseios esperançosos?



Razzo:“Esta é uma pergunta especial e difícil de responder e que esconde uma tentação. Contudo, penso que um dos caminhos mais fortes é o reconhecimento de que a experiência mundana é limitada e por isso as respostas pelas angústias humanas estão numa ordem religiosa. Uma das maiores características da imaginação totalitária era a politização de todas as categorias e experiências humanas, com a intenção de transformar essa natureza e sociedade e realizar o ‘Paraíso na Terra’. Devemos aperfeiçoar nossa imaginação moral, voltada para o consumo de realidades que abrem a possibilidade da alma humana para sua condição. O velho princípio socrático vale aqui, de que uma vida sem ser examinada não é digna de ser vivida. Os exames do ceticismo filosófico moderado partem do pressuposto que a condição humana é frágil. Os exames cristãos chamam essa condição da natureza humana de pecado ou Queda. A partir destes conceitos que denunciam a condição humana, somos levados duvidar das utopias humanas e a entender que precisamos de uma ordem transcendental e religiosa para nossos anseios e esperanças e o acesso a essa ordem se da pela fé religiosa, e não pela política.”



Fonte: Jornal o Regional
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